Contribuindo com o que todo mundo já sabia…

23:58 | 24/01/05 | Walter Valdevino

Ajuda a pobre pode ser ruim, diz economista

Para Prêmio Nobel, país em desenvolvimento deve buscar alternativas imaginativas à assistência internacional para crescer

Os países ricos não podem mais ignorar os interesses dos países pobres no mundo globalizado em que vivemos, e a idéia de que os países em desenvolvimento ficarão sempre para trás está ultrapassada, afirma Amartya Sen, 71, ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 1998. Os interesses dos países pobres agora têm importância, inclusive comercial, para os países ricos, diz.

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Folha de São Paulo

FOLHAdinheiro

São Paulo, segunda-feira, 24 de janeiro de 2005

GLOBALIZAÇÃO

Para Prêmio Nobel, país em desenvolvimento deve buscar alternativas imaginativas à assistência internacional para crescer

Ajuda a pobre pode ser ruim, diz economista

LAURENCE CARAMEL
DO “MONDE”

Os países ricos não podem mais ignorar os interesses dos países pobres no mundo globalizado em que vivemos, e a idéia de que os países em desenvolvimento ficarão sempre para trás está ultrapassada, afirma Amartya Sen, 71, ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 1998. Os interesses dos países pobres agora têm importância, inclusive comercial, para os países ricos, diz.
O economista indiano se dedica à pesquisa de questões ligadas à economia do bem-estar, com interesse especial pela parcela mais pobre da população.
Sen é professor do Trinity College, em Cambridge, na Inglaterra, e já lecionou na Universidade de Oxford e na Universidade Harvard. O economista escreveu, entre outros, os livros “As Finanças Ocultas dos Pobres” e “Sobre Ética e Economia”.
Sen defende que, com políticas imaginativas, os países pobres podem deixar de depender da “caridade” dos países ricos e se integrar à economia mundial. Como exemplo, cita a China, mas acha que “é triste ver um país registrar tamanho sucesso e não conseguir dar liberdade de expressão a seus cidadãos”. Leia entrevista.

Pergunta - O sr. participa do Fórum de Desenvolvimento Humano, organizado em Paris pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). Como o sr. avalia os esforços realizados pela ONU para mobilizar os países ricos para a luta contra a pobreza?
Amartya Sen - Está surgindo uma nova consciência. Os dez últimos anos nos permitiram ver com clareza o mundo globalizado em que vivemos. Compreendemos pelo menos três coisas: primeiro, vivemos em um mundo indiviso. Até recentemente, era possível aos países ricos viver na ignorância quanto aos interesses dos países pobres. Agora, isso deixou de ser possível, porque os interesses deles nos concernem em termos de comércio, comunicação, segurança, saúde e em muitos outros domínios.
Segundo, a idéia que dispõe que os países em desenvolvimento ficarão permanentemente para trás, incapazes de sair da miséria e aptos apenas a receber a caridade dos países ricos foi substituída pela certeza de que, com políticas imaginativas, será possível que eles se tornem personagens importantes no cenário mundial. A China demonstrou claramente que isso é possível. E a Índia, igualmente, em certa medida. A paisagem já não é a mesma.
Por fim, no que tange à segurança, se não é correto afirmar que a pobreza cria o terrorismo, é ainda assim lícito pensar que o fato de ser pobre e viver em um mundo percebido como injusto e que maltrata certos grupos gera certa tolerância à violência. As sociedades do Oriente Médio, por exemplo, vivem com essa percepção, e não podemos ignorá-la.
Por todas essas razões, a verdade é que hoje é um bom momento para fazer valer a declaração do milênio e obter compromissos sérios da comunidade internacional quanto a essas questões.

Pergunta - O sr. é cidadão de um país que, embora preocupado primordialmente com a pobreza, demonstrou grande reticência no que tange à assistência internacional. O que explica essa atitude?
Sen - A assistência internacional pode certamente auxiliar a maioria dos países pobres, e isso inclui a Índia. Mas o fato de aceitar assistência e se tornar dependente dela pode ter conseqüências muito negativas, ao incitar um país a acreditar que é capaz de extrair da assistência internacional coisas que poderia produzir sem ajuda.
Se é dever dos países ricos doar o máximo que puderem, é igualmente dever dos países pobres pensar naquilo que podem fazer sem ajuda. Depois de um longo período de dependência, a Índia estima que pode dispensar ajuda. Dispõe de meios econômicos e quer ser tratada como igual pelas demais nações.
Essa atitude é fruto de um longo debate interno. Mas, além disso, é preciso perceber também, nessa exigência, uma realidade que vai além, e muito além, do caso do meu país. Os países em desenvolvimento não querem mais ter com os países ricos um relacionamento baseado exclusivamente sobre a caridade. Em minhas viagens pelo mundo, ouço sempre a expressão desse mesmo desejo, quer se aplique às regras de comércio internacional ou ao funcionamento do sistema mundial de patentes.

Pergunta - Isso seria possível sem reforma do sistema de governança mundial, que continua a ser dominado em larga medida pelos países mais ricos?
Sen - Nosso sistema data do pós-guerra, período em que metade do mundo era composta por impérios coloniais. Em instituições como o Bird (Banco Mundial) ou o FMI (Fundo Monetário Internacional), os doadores têm poder demais. Seria preciso estabelecer relações fundadas primordialmente sobre a cooperação e a responsabilidade dividida entre aqueles que doam e aqueles que recebem.

Pergunta - A China fascina por seu sucesso. Serve como modelo aos países em desenvolvimento?
Sen - A China passou de um extremo a outro, de modelo social a modelo econômico, sem conseguir conciliar os dois. Na época maoísta, tratava-se do país que adotou a mais ambiciosa política de saúde e educação, ainda que o desempenho de sua economia fosse medíocre. Depois, no final dos anos 70, empreendeu reformas e transformou nossa visão do mundo, ao provar que um país pobre, se adotar as medidas corretas, pode se integrar com sucesso à economia mundial.
Mas o sucesso tem seus limites. O nível de saúde pública recuou, e as desigualdades crescem com rapidez que jamais observei em outro país.

Pergunta - E como essa situação surgiu?
Sen - A falta de democracia desempenhou papel importante porque, em país onde exista pluripartidarismo, governo nenhum teria sobrevivido à privatização brutal do sistema de saúde e seguro social que a China empreendeu ou a uma distribuição tão desigual dos benefícios do crescimento. A Índia acaba de passar por essa experiência e, mal eleito, o novo governo do Partido do Congresso se pronunciou em favor da globalização, mas com distribuição eqüitativa das riquezas.
Na China, não há eleições a perder, ninguém pode fazer críticas. É triste ver um país registrar tamanho sucesso e não conseguir dar liberdade de expressão a seus cidadãos.
Isso em parte explica, para mim, a pobreza da China. E não serve de nenhum modo de lição a outros países, porque sabemos que o mundo precisa de mais educação, de mais saúde e de uma visão de desenvolvimento que dê lugar privilegiado à igualdade social.

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Postado por Walter Valdevino, 23:58, 24/01/05, na(s) categoria(s) Demência. Você pode acompanhar os comentários deste post através do feed RSS 2.0. Deixe um comentário ou coloque um trackback em seu site.

1 comentário para “Contribuindo com o que todo mundo já sabia…”

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