Brincadeira de espiar

15:07 | 22/11/05 | Rodrigo Alvares

2 de agosto

Um documento entregue pelo empresário Marcos Valério Fernandes de Souza liga o escândalo do caixa dois ao Rio Grande do Sul. O ex-tesoureiro do PT gaúcho Marcelino Pies (foto) teria sido autorizado a sacar R$ 500 mil e R$ 700 mil em 2003 das contas de Valério, por indicação do então tesoureiro nacional do PT, Delúbio Soares. Delúbio é acusado de montar com Valério um esquema de distribuição de recursos a partidos aliados. A informação é confirmada por Simone Vasconcelos, diretora financeira da empresa, em depoimento à Polícia Federal.

O secretário de Finanças do PT gaúcho, Christian Silva, garante que todas as movimentações financeiras estão documentadas e contabilizadas. Já o presidente David Stival nega a acusação e propõe uma acareação com Simone para esclarecer a verdade.

Depurando

Por mais de dois meses, a Polícia Federal investigou a prática de caixa 2 no Rio Grande do Sul. Na época, o ex- presidente do partido David Stival teria declarado que o caixa 2 era uma prática sistemática do partido e de outras siglas. Leia mais abaixo. Nas próximas horas: entrevista com David Stival.


LÉO GERCHMANN
da Agência Folha, em Porto Alegre

O PT gaúcho utilizou o valor de R$ 1,050 milhão pego com a empresa SMPB, do empresário Marcos Valério de Souza, para pagamento de dívidas a fornecedores em campanhas eleitorais.

A afirmação foi feita ontem pelo seu presidente, David Stival, em depoimento à Polícia Federal, no qual não especificou a qual campanha se referia.
Em 2002, o candidato do PT ao governo do Rio Grande do Sul foi o atual presidente nacional do partido, Tarso Genro.

Em 2000, Tarso foi também candidato a prefeito de Porto Alegre, candidatura que coube ao deputado estadual Raul Pont em 2004.

De acordo com o delegado Luiz Nestor Contreira, na semana que vem outras pessoas serão ouvidas. Não quis, porém, adiantar quem são elas. ”Nós começamos [as investigações] a partir da campanha de 2002, mas isso não quer dizer que não se amplie ou retorne ou venha para 2004”, disse o delegado.

O responsável pela retirada da maior parte do dinheiro em Belo Horizonte para o PT gaúcho foi o engenheiro civil Marcos Trindade, 44. Ele contou ontem que viajou quatro vezes à capital mineira para pegar um total de R$ 900 mil e, em três delas, voltou, com dinheiro vivo, de ônibus.

Militante do PC do B até 2000 –quando se filiou ao PT –, Trindade, que se diz ”militante de esquerda e comunista sempre”, afirmou ter aceito buscar o dinheiro por encarar isso como ”uma tarefa” de ”um homem de esquerda”.

Trindade já trabalhou como diretor da Secretaria de Obras Públicas no governo do petista Olívio Dutra (1999 a 2002) e foi chefe do serviço de engenharia e saúde pública e coordenador substituto da Funasa (Fundação Nacional da Saúde) –órgão público federal –até julho de 2005. Sua exoneração foi publicada apenas anteontem, no “Diário Oficial” da União.

Na única vez em que foi de avião a Belo Horizonte, ele acompanhou Paulo Bassotto, no dia 16 de junho de 2003. Na ocasião, Bassotto foi detido pela PF com R$ 150 mil. Esse dinheiro não está contabilizado pelo PT no valor de R$ 1,050 milhão. Trindade diz que o viu ser detido, mas seguiu viagem.

”Informaram-me que eram recursos do diretório nacional disponibilizados em Belo Horizonte. Nunca imaginei nenhuma ilegitimidade”, disse ele, que afirmou, também, desconhecer na época quem era Marcos Valério.

”Minha tarefa era só pegar o dinheiro, não perguntei o que fariam. Entreguei ao tesoureiro [na época, Marcelino Pies, que, ele próprio, pegou R$ 150 mil para dividir entre duas gráficas –R$ 75 mil para cada uma –no Rio Grande do Sul).”

Postado por Rodrigo Alvares, 15:07, 22/11/05, na(s) categoria(s) Mensalão: ele existe. Você pode acompanhar os comentários deste post através do feed RSS 2.0. Deixe um comentário ou coloque um trackback em seu site.

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