Exclusivo – Entrevista com Gilles Lipovetsky

13:40 | 23/11/05 | A Nova Corja

O filósofo francês Gilles Lipovetsky esteve em Porto Alegre para participar do VIII Seminário Internacional da Comunicação, realizado pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação da PUCRS em 3 e 4 de novembro de 2005. Logo depois de sua palestra, Lipovetsky concedeu uma rápida entrevista à Nova Corja sobre os rumos da política brasileira sob os primeiros movimentos da Hipermodernidade e as suas principais conseqüências para o país..

Spoiler alert: não fizemos nenhuma pergunta sobre moda, o que é fashion etc. Aqui não é o RS VIP.

A Nova Corja: O senhor está a par da crise política no Brasil? Qual a sua visão sobre isso, já que os franceses em geral consideravam que Lula era uma nova esperança?

GL: Creio que os brasileiros também achavam que ele era uma esperança (risos). Veja bem, isso me faz ter uma reflexão bastante banal: a corrupção, o desejo de enriquecimento não são privilégios somente de algumas pessoas, mas estão por todos os lugares. Agora, tudo isso deverá conduzir a refletir mais sobre o programa do que às simples declarações de virtude nas quais muita gente crê. E também penso que deve ser a ocasião para que o país modifique as leis, reforce o aparelho jurídico para lutar contra a corrupção. Esse é um combate político muito difícil que existe em vários países. Existe nos Estados Unidos, existe na Europa. Creio que a mundialização, que acelera as trocas, deve ser acompanhada de regras jurídicas mais estritas da parte do mercado e de todos os poderes. Não podemos esperar que as pessoas se tornem virtuosas pela sua própria vida, é preciso que a sociedade invente dispositivos que freiem o desejo de enriquecimento das pessoas.


A Nova Corja: Então o senhor pensa que há uma maturidade, nesse sentido político, quando paramos de acreditar em utopias?

GL: A corrupção não é um fenômeno novo, ela existe há muito tempo. Mas provavelmente ela se expandiu em uma escala muito maior. Isso é inegável e exprime o papel do dinheiro, a importância muito maior do dinheiro. Isso já existia, mas provavelmente tem cada vez mais importância, enquanto os ideais têm cada vez menos.

A Nova Corja: O senhor já veio ao Brasil algumas vezes. Quais são os aspectos de hipermodernidade que o senhor observa nas cidades brasileiras?

GL: Não conheço todo o Brasil, conheço mais a parte sul. É verdade que quando se entra neste país temos quase que um sentimento físico de hipermodernidade. São Paulo é uma cidade hipermoderna pelas características de sua extensão interminável, entre outras coisas. Em segundo lugar, creio que o Brasil é um país de mestiçagem humana, mas também de cultura. É um país que ama o exterior, que absorve, que tem sua própria maneira de existir, sua mistura de estilos. E isso é um aspecto hipermoderno porque não é algo estrito, austero. Este país não tem uma cultura sistemática, é uma cultura bastante aberta e isso é uma característica da hipermodernidade. Por outro lado, há algo de gigantismo por todos os lados, de superação nas coisas. Além disso, é um país que liberalizou enormemente quase tudo e que, portanto, está de acordo com a mundialização, com essa nova cartografia da hipermodernidade.

A Nova Corja: O senhor acredita que essa nova interpretação da modernidade — ou pós-modernidade ou hipermodernidade — que privilegia esse aspecto de paradoxo, pode ser considerada como uma nouvelle vague da filosofia, ou da filosofia política. Não é uma visão catastrofista, mas também não é uma visão otimista.

GL: Nem puramente otimista, nem apocalíptica. Mas não é uma filosofia política, eu diria que é mais uma filosofia social.

A Nova Corja: Mas que tem conseqüências políticas…

GL: Que tem conseqüências políticas, certamente. Você deve ter visto nos meus livros que não faço uma pesquisa sobre os fundamentos. Tento sobretudo interpretar o que observo, o movimento da ordem social, é isso que observo. Não sei se é uma filosofia. É uma mistura de filosofia, de sociologia, de história. Creio que no futuro teremos uma modalidade diferente: teremos as disciplinas universitárias estritas, as “burocracias” do saber, os sociólogos, os analistas políticos, os historiadores, mas, paralelamente, teremos pensadores e livros mais independentes dessa classificação, e eu me incluo nisso. Não me coloco nunca a questão de saber em que categoria estou. O que me interessa são os problemas. Não critico as disciplinas isoladamente, mas eu faço outra coisa, de maneira mais livre e do modo que quero.

A Nova Corja: O senhor concorda que sua interpretação da modernidade poderia ser comparada, por exemplo, com a do filósofo Charles Taylor, que propõe uma interpretação da modernidade que deve levar em conta a grandeza e a miséria dessa modernidade?

GL: Estou bastante de acordo com isso. Creio que há muitos autores que vêem só um aspecto das coisas. Se contribuí um pouco para tornar as coisas mais complexas, isso pode ser interessante, sobretudo em relação à mundialização e aos discursos apocalípticos. Os chineses, por exemplo, não querem uma mundialização parecida com a que conhecemos, para eles se trata de uma questão de fututo, há muitos problemas. Creio que pensamento da modernidade e da hipermodernidade deve estar atento à tensão, ao paradoxo.

Postado por A Nova Corja, 13:40, 23/11/05, na(s) categoria(s) Demência. Você pode acompanhar os comentários deste post através do feed RSS 2.0. Deixe um comentário ou coloque um trackback em seu site.

2 comentários para “Exclusivo – Entrevista com Gilles Lipovetsky”

  1. träsel diz:

    finalmente alguém faz perguntas que prestem ao lipovetsky.

  2. marlon diz:

    entrevista fashion

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