Sindicato de jornalista

1:05 | 05/04/06 | Gabriel Brust

Esses dias lembrei de uma piada que li em uma Revista MAD das antigas, da minha coleção que se perdeu ao longo da adolescência. Era uma parte da revista chamada “Você nunca sabe ao certo…” e diversas situações-piada completavam a frase. Tipo, “você nunca sabe ao certo… se a carne do hamburguer é realmente de boi”, e acompanhava um cartum engraçado. Bem divertido. Pois uma delas - a que eu lembrei - era assim: “você nunca sabe ao certo… se o sindicado está te ajudando ou ferrando a tua vida”, e o desenho era um personagem com expressão de desconfiança segurando um cartaz onde se lê “greve”.

Sou jornalista e nunca assinei papel nenhum do sindicato. Mesmo assim, mensalmente sofro descontos no contracheque a título de “contribuição sindical”.


Embora seja um valor que me ajudaria a pagar parte das contas básicas, não quero me deter a isso. Nada pior do que particularizações para desqualificar uma boa reflexão. Mas é fato que o enfraquecimento dos sindicatos é um fenômeno observado em todo o mundo e provavelmente por coisas como esta. No Brasil, os sindicatos acabaram encarnando as características mais desprezíveis da burocracia de Estado. Até mesmo o desconto no contracheque vem ali, ao lado do desconto do INSS, Imposto de Renda, etc. Impossível não notar a semelhança no achaque. No entanto, acho que os descontos do Estado são muito mais justos. Pago INSS e Imposto de Renda sem reclamar. Mas para o sindicato não.

Pagar o sindicato é compactuar com que há de pior em termos anacronismo - especialmente no jornalismo. Sindicato de jornalista então, é um capítulo à parte nessa história. Invariavelmente, se torna cabide de emprego para gente que tem muito mais jeito de caixa de banco estatal do que de jornalista. Querem estabilidade, triênio e quinquênio. Não é estranho, portanto, que haja hoje um apartheid entre jornalistas de redação e “de sindicato”. Os de sindicato dizem defender a classe, mas a classe não quer aquilo que eles defendem. A própria expressão “classe” já passou a fazer parte do vocabulário apenas deles. Jornalistas de redação querem trabalhar. A classe não quer Conselho Federal de Jornalismo. Os sindicalistas, como bons marxistas, acusam a classe de ser alienada. Afinal, não sabe o que é bom para ela própria. Por sorte, temos o sindicato para zelar por nós e nos guiar rumo ao que é melhor.

Digito este texto assistindo ao Observatório da Imprensa, outro exemplo deste louvável e inexorável processo de isolamento a que os “jornalistas de sindicato” estão fadados. No OI, as velhas idéias insistem em respirar. Dines parece um dinossauro patético. Um dia desses, citei o OI em uma conversa entre amigos e ouvi a seguinte frase antes de continuar: “o OI não conta, é programa de sindicalista”. Acho que isso resume bem. Não sou contra a associação de profissionais e de conquistas coletivas. Mas os sindicatos, neste atual formato, estão com os dias contados. Só não vê quem não quer.

Postado por Gabriel Brust, 1:05, 05/04/06, na(s) categoria(s) Gente inútil. Você pode acompanhar os comentários deste post através do feed RSS 2.0. Deixe um comentário ou coloque um trackback em seu site.

12 comentários para “Sindicato de jornalista”

  1. Rodrigo diz:

    Nunca esqueço um “debate” na Famecos sobre a necessidade do diploma onde todos na mesa eram a favor da bagaça. Esses caras estão extintos e sabem disso, o que é mais triste.

  2. Rodrigo diz:

    E sim, isso inclui José Carlos Torves. Qualquer declaração pública dele me dá pena. Sua defesa do Conselho Federal de Jornalismo é o melhor exemplo disso.

  3. JT diz:

    “Joga muita bola esse negão.”, com perdigotos voando em direção à cãmera. É a imagem que eu tenho do Torves quando falava do Dener. Esse animal não tem condições de gerenciar uma quitanda…

  4. Bruno Galera diz:

    Sindicato = Observatório de Imprensa = Derrota.

  5. Paulo diz:

    Logo logo até o jornalismo tem seus dias contados… anda tudo tão sem graça!

  6. Roger diz:

    “Sou jornalista e nunca assinei papel nenhum do sindicato. Mesmo assim, mensalmente sofro descontos no contracheque a título de “contribuição sindical”. ”
    Ou tu é muito mentiroso ou muito imbecil! A contribuição sindical é obrigatória, e descontada UMA VEZ POR ANO e não uma vez por mês.
    Se tu paga MENSALIDADE é por que quer pagar pois é sócio do sindicato. Isso sim é discricionário, ninguém pode te obrigar.

  7. Gabriel B diz:

    Ok, não chega a ser mensal, mas paguei a contribuição umas três vezes nos últimos seis meses, pelo menos. Mas, como eu tentei deixar claro no texto, esse não é o ponto principal. Se fosse uma vez a cada dez anos já seria um absurdo.

  8. Roger diz:

    Tem mais um detalhe, da forma como estão protegidos, inclusive por normas CONSTITUCIONAIS, os sindicatos e a polpuda verba que arrecadam com as famigeradas “contribuições” , estão cada vez mais fortes! Pelo mesnos econômicamente, que afinal, é o que realmente conta neste pais. Não quero defender o sistema sindical, só que é uma ingenuidade muito grande pensar que “estão com os dias contados”, pois possuem aporte financeiro garantido, mesmo com poucos filiados.
    Tu devia conhecer um pouco mais sobre o assunto antes de falar besteira.
    Odeio jornalistas.

  9. Gabriel B diz:

    Também odeio jornalistas.

  10. Gabriel B diz:

    E quem diz que os sindicatos estão fracos não sou eu. Mas sim os números que mostram a queda vertiginosa na quantidade de profissionais sindicalizados, além de alguns bons sociólogos, como Richard Sennet.

  11. träsel diz:

    Eu diria que os sindicatos podem até estar economicamente forte, mas certamente já não representam mais os trabalhadores.

    Aliás, que merda de classe é essa, que nunca faz greve? Classe = greve. Jornalista quer mais é degolar o colega ao lado. Não faz o menor sentido ter sindicato.

  12. Douglas diz:

    Começei a faculdade de jornalismo, e já ao final do primeiro semestre já me causava uma naúsea esse curso. Professores que faziam de conta que davam aula, distorciam a realidade do mercado proficional, e isso não era nada; de vez em quando um professor chagava e dizia a seguinte frase: “Jornalista tem que mudar o mundo”. Isso me dava uma raiva. Pois, se eles mesmos (professores) dessistiram da carreira para dar aula, então por que os mesmos dizem isso?

    Resultado, troquei de curso. Troquei porque nem eles mesmos sabem o que estão fazendo. Brincam de ser marxistas, mas ao final da aula entram nos seus Audis, Mercedez; e seguem para os condimínios para planejar a próxima viajem a Paris.

    Não sou contra marxistas, e nem à favor. Odeio politica, odeio quando era obrigado a ver palestras dos compadres politicos dos professores; falando abobrinhas em defesa do diploma.

    E por falar em diploma, acho que essa questão deveria vir de dentro para fora. Não adianta reclamar que perdeu o canudo se os cursos não se fortalecem. Posso dar um exemplo pelo meu, em que em todo o curso, só possuia duas cadeiras de Português. Ora, isso é o material de trabalho de todo jornalista até a sua aposentadoria.

    Antes eu tinha um sonho. Mas percebi que não vale mais a pena. Ser marionete não é para mim…

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