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“Ah, tem que pagar?”. O fracasso da TV digital brazileira em ato contínuo

2:13 | 18/04/08 | Leandro Demori

Entrevista com Erlei Guimarães, diretor de conectividade da Positivo Informática, empresa que fabrica conversores.

Posso dizer tranqüilamente que a TV digital brasileira fracassou?
Nos seus termos, pode. O mercado não respondeu de forma alguma às expectativas da indústria. Veja você que hoje, menos de seis meses depois do lançamento oficial do sistema, estamos discutindo como “relançar” a TV digital no Brasil. Isso desde a parte técnica até esclarecimentos para o consumidor. Neste ponto, digo tranqüilamente que foi feita uma comunicação direcionada só para classe A e B que têm TV de Plasma. Faltou explicar as vantagens para a maior parte das pessoas.

Quais são os principais erros do sistema?
São vários, por isso já se fala em relançamento. O projeto foi desenvolvido ao longo de 2007 e a grande dificuldade era que as especificações técnicas estavam sendo trabalhadas em paralelo com a indústria. Estávamos caminhando meio que no escuro. Tecnicamente, achava-se que não teria áreas de sombra (onde não há sinal), mas tem. Além disso, ninguém avisou à população que para pegar o sinal precisa de antenas UHF, que ninguém usa. Em São Paulo, as antenas de transmissão estão em vários pontos da cidade, mesmo assim há sinal ruim, imagem blocada, congelada.

Claramente não funciona.
Na prática, muito pouco. Está sendo um grande aprendizado, todos estamos aprendendo.

Se funcionasse, quais seriam os benefícios em relação a TV convencional?
Por enquanto, somente imagem de qualidade de um DVD (definição padrão de 480 linhas). Quem tem TV de plasma teria um ganho maior (1080 linhas). Aí já é uma qualidade muito perceptível. Imagem muito mais cristalina e profunda que permite ver detalhes que a definição normal não dá.

E quanto à interatividade, a capacidade de montar sua própria grade de programas e quetais? Me parece que esse é o grande barato…
Sinceramente, isso está bem distante. Estamos diante de um problema inesperado: há a obrigatoriedade do pagamento de royalties que ninguém havia se dado conta. Terá de haver acordos para o pagamento desses royalties, que não estavam na conta.

Como assim? Foi lançado um sistema e NINGUÉM sabia que tinha que pagar licença? Explica melhor, por favor.
Acontece que o sistema brasileiro, o Ginga (o nome já remete ao fracasso) tem dois módulos, um desenvolvido pela PUC Rio – que está pronto – e outro Java, desenvolvido pela Universidade Federal da Paraíba, que é baseado em tecnologia estrangeira com uma série de softwares que a indústria só foi tomar conhecimento nesse momento. Busca-se o royaltie free, mas isso ainda depende de uma negociação. Além do mais, o próprio Ginga ainda está em fase de testes e desenvolvimentos. Por outro lado, os difusores (TV e rádio) precisam definir como será feita essa interatividade.

Obrigado, Erlei. A partir de hoje vou dizer para todo mundo que a TV digital brasileira não existe.
Obrigado.