Dose diária de demência - 30/06/2009
16:37 | 30/06/09 | Rodrigo AlvaresA internet jamais vai chegar ao Brasil. Sorte que simplesmente não há tempo hábil para votarem uma aberração dessas porque os deputados vão emendar São João com o natal, enquanto se escondem embaixo das mesas para que a crise do Senado não migre para a Câmara. Como sempre.
O deputado federal Flávio Dino (PC do B-MA) disse ao blog que pretende dar uma nova redação ao projeto de lei eleitoral para restringir o uso livre da web apenas nos grandes portais e provedores de internet com finalidade comercial.
Pela tese de Dino, ficariam livres da regras restritivas os blogs, sites e grupos de discussão em redes de relacionamento sem finalidade de lucro.
Grande problema 1: como fazer a distinção? Todos os sites, blogs etc. de pessoas físicas estão necessariamente hospedados em grandes portais e provedores. É impossível distingui-los. A fiscalização seria inviável.
Grande problema 2: qual é a razão para impor restrições aos grandes portais e provedores comerciais, uma vez que são todos empreendimentos livres e não concessões públicas? Flávio Dino acha necessário porque acredita que os portais se tornaram um novo e potente meio de comunicação que podem desequilibrar um processo eleitoral.
O blog discorda de Flávio Dino e pediu a ele que respondesse a uma pergunta: se não houvesse nenhuma regulamentação para a internet nem para rádio e TV, ele então acredita que as emissoras e os portais todos tomariam partido de candidatos presidenciais contra Dilma Rousseff e o PT, por exemplo, destruindo as chances de o governo Lula ser vitorioso no ano que vem? Eis a resposta do deputado:
“Nessa hipótese, emissoras de rádio e de TV iriam privilegiar candidatos em todo o país desequilibrando o princípio da igualdade de chances na democracia. Como a internet tem alguma similaridade com rádio e TV, é justo que algumas regras do rádio e da TV se estendam à internet”.
Esse é o pensamento mais ou menos majoritário no Congresso. São enormes as chances de o Brasil ter uma das mais restritivas regras do planeta para o uso da internet em campanhas eleitorais. Por consequência, a prática do jornalismo ficará também engessada e comprometida por causa de uma sofismática noção de equidade.
A Câmara deve definir e votar o projeto ainda antes do recesso congressual (que começa em 18 de julho). Em, seguida, o Senado precisa aprovar tudo até setembro, a tempo de as regras valerem para a eleição de outubro de 2010.”
Concordo inteiramente com o deputado. Afinal de contas, os jornais, revistas e televisões dos Estados Unidos também são proibidos de apoiar abertamente um candidato presidencial porque os políticos cortaram fora a primeira emenda na Era Bush. Tu deves te lembrar: aquela que garante liberdade de expressão e de imprensa.
Pena que a ideia do deputado vai abaixo quando sabemos como Barack Obama foi eleito por lá no ano passado. Deve ser essa a inspiração de Dino, um visionário da política cibernética. Caso isso realmente seja aprovado, pode até ser melhor, mesmo.
No ano passado, as TVs e jornais ficaram completamente engessadas - como sempre -, e acompanhar a demência de todos os candidatos do país pelo YouTube três meses antes foi bem mais divertido. Imagina em 2010, com o Twitter e o Facebook dos postulantes comendo soltos pela rede.

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