Quando o debate dos candidatos à prefeitura de São Paulo começou com o repórter Fábio Pannunzio alertando para os telespectadores “relaxarem em casa pelas próximas duas horas”, eu percebi imediatamente que todo o circo armado pela Rede Bandeirantes ia entrar em chamas. Diferente do debate no primeiro turno, desta vez rolou acesso completo ao estúdio onde transcorreu o barraco. Mas eu deveria ter notado que aquilo não ia dar certo bem antes de me refugiar ali dentro.
Cheguei ao pátio da Band e vi alguns jornalistas se acotovelarem para garantir frases e fotos de Marta Suplicy (PT). Não estava nem um pouco interessado em entrar no curral, mas a curiosidade falou mais alto. Depois que a ex-prefeita saiu, dei uma volta por ali e ouvi algumas jornalistas tentando sincronizar o que ela havia dito: “…ela disse que queria saber se ele [Gilberto Kassab (DEMO)] é casado? Ô, baixaria”, comentou uma delas.
Lembrei do rega-bofe do debate anterior e fui conferir se os acepipes já estavam à disposição dos esfomeados, mas no caminho encontrei o ex-governador de São Paulo Orestes Quércia (PMDB). Deu dó. Ele estava na frente da porta do estúdio e ainda assim ninguém vinha falar com ele. Entretanto, para manter a tradição democrática, as pessoas não faziam lá muita questão de pegar os salgadinhos com um guardanapo, ou algo que o valha - inclusive o ex-ministro da Educação Paulo Renato (PSDB).
Robson Fernandjes/AE

“Pedágio urbano? Mandei o projeto para a Câmara, mas nunca ouvi falar”
Se o nível estava assim do lado de fora, comecei a temer o que me esperava dentro do estúdio. Infelizmente, entrei lá bem na hora em que começou o horário polítco. Tudo corria tranqüilo, até que deixaram muda a fala do presidente Lula (PT) na propaganda de Marta, o que já pôs os petistas a reclamar.
Parecia uma sessão de cinema. Mesmo com seus lugares guardados, muita gente saía e deixava para uma amiga guardar o seu com uma bolsa. Como eu estava no lugar indicado como “Imprensa”, estranhei quando o vereador e pagodeiro Netinho de Paula sentou ao meu lado. Cinco minutos depois, correram com ele dali.
No palco, Kassab parecia muito mais à vontade do que Marta. Sorria quando aparecia o Kassabinho na sua propaganda. A petista não se medrou e tocou o horror no prefeito logo no primeiro bloco. Perguntava do seu passado, para fazer ligação com Celso Pitta, e queria saber quem era o verdadeiro Kassab. A estratégia teria dado certo se ela não tivesse insistido tanto nesse bordão.
Robson Fernandjes/AE

“Também sei mexer os braços como o Kassabinho”
Era muita miudeza sendo discutida. Pudera. Uma cidade com os problemas de São Paulo, e os dois ficam discutindo se implementar tenéti banda larga na cidade vai custar mião ou bião. Óbvio, é preciso que instalem logo, urgente. Preciso usar meu laptop enquanto estiver nos engarrafamentos ou de pé no busão.
Foi a partir daí que a baixaria começou a imperar. A claque petista aplaudia e os kassabistas grasnavam “Vai gritar lá fora” e “Sai, PT”. Teve uma hora em que me irritei e perguntei para quem estava ao meu lado quem era o cara que não parava de gritar contra as hostes petistas, mas aí a Lúcia Hipólito (Beijo, me liga) me disse que era a Zulaiê Cobra (sem partido). Confesso que não esperava ver gente tão bem apessoada e letrada apresentar traços de completo transtorno circunstancial. Enquanto isso, notei que até a iluminação acima da petista era mais forte do que em Kassab.
No segundo bloco, Marta apelou pela primeira vez para Lula e levou mais apupos dos rivais. Antes bem altivo, Kassab começou a se mostrar tenso quando a ex-prefeita mencionou o movimento “Reage, Pitta”, que o demonista liderou para ajudar a defender seu então chefe. O problema é que Marta exagerava na dose e dava para ver que a tensão dela não ficava só no estúdio. Também ficava claro na tela da TV.
O penúltimo bloco começou com perguntas dos jornalistas da Band. Colocaram a crise global na roda e finalmente questionaram o orçamento da cidade - de R$ 29 bilhões. Mesmo com provas de que a prefeitura investe uma bolada no mercado financeiro e deve estar apavorada com a queda da Bovespa, Kassab quis dissuadir o espectador de que Marta não sabe o que é ter uma conta no banco e cuidar dela. Então, tá.
Já ouvi palavras mais agradáveis da coréia do Beira-Rio em um Gre-Nal do que ontem, dentro do auditório. Tudo porque Kassab teve um pedido de direito de resposta aceito e os “juristas” da Band negaram três feitos por Marta. Mas eles estavam certos: ela demorou demais para pedir, e o prefeito, que trocava olhares lânguidos com seus marqueteiros, não bobeou.
Quais eram as acusações? Ah, o de sempre: mentiroso, corrupta, mensalão, pode escolher. A impressão é que o demonista precisava de demonstrações de apoio dos aliados para quase qualquer coisa que Marta falava.
A várzea ficou completa quando Kassab acusou Marta de fazer um debate pequeno, mas aí começou a falar dos dólares na cueca, de Delúbio Soares e sua mulher. Projeto para a cidade? Coisa para idiotas. Depois da terceira negativa, os petistas entraram em chamas e começaram a gritar que “A Band é Vendida”, “O Casoy é vendido”, “Marmelada”. Perdi a conta de quantas vezes pararam o debate. Parecia debate de centro acadêmico. Hmm, pensando bem, nunca vai deixar de ser.
Para completar, no último bloco Marta estava completamente esganiçada e espantou o tédio mortal ao discorrer sobre os problemas de acessibilidade nas calçadas “para os cadeirantes, os idosos e…os…que tem problema de QI“. Todos na platéia ficaram se olhando, sem saber o que dizer ou esboçar uma risada. Depois dessa, comecei a me concentrar na dor do meu siso. Fazer o que, eu estava cercado e precisava me isolar da demência de alguma maneira.