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História perdida

14:52 | 18/10/08 | Leandro Demori

Hoje vou contar uma história que deixei passar sobre o tumulto no supermercado Nacional. Não escrevi nada na época pois queria ver a discussão evoluir sem uma interferência mais objetiva - e perceber as diferentes opiniões sobre o fato. Opiniões, meras opiniões, como deixarei claro nas linhas abaixo.

Sou testemunha ocular do episódio. Eu estava lá no momento em que a Via Campesina chegou ao Nacional. O que segue, portanto, nada tem a ver com ideologia, esquerda, direita, volver. São os fatos, somente eles, vistos e narrados por mim e que, obviamente, sofrem interferências de minhas limitações inerentes.

Moro ali perto, a poucos metros do supermercado invadido. Naquela manhã eu estava saindo de casa para uma reunião de trabalho (odeio) e passei pelo estabelecimento bem na hora em que a marcha estava chegando. A polícia, esta boba, feia, má e truculenta, estava fazendo sabe o que? Acompanhando a Via Campesina. Ou escoltando os manifestantes, como queiram. Sendo mais descritivo: policiais caminhavam em duplas ou trios pelas calçadas, conversando, olhando para os lados, com as mãos para trás, enquanto a marcha ocupava a via e avançava pela rua dos fundos do supermercado vinda da Getúlio Vargas, direção bairro/centro.

Não importa se você é DO movimento ou apenas acredita que ele tem alguma função social. Atenha-se à descrição: a feição das pessoas que ali estavam e as atitudes mostradas em NADA CONDIZIAM com um protesto pacífico sobre a alta dos alimentos. Caminhar com pranchas de madeira como se fossem escudos e com pedaços de pau batendo nas tábuas, EXATAMENTE COMO FAZ UMA TROPA DE CHOQUE, não me parece algo “Give Peace a Chance”.

[Aqui, uma opinião pessoal: a idéia de invadir o estacionamento do supermercado me pareceu improvisada (mas não descarto o caso pensado). Quando chegaram na esquina do Nacional, alguém deve ter dito “abaixo capitalistas americanos!”, ou algo do tipo. Uma frase dessas, em meio àquela gente com cara de poucos amigos, seria suficiente para insuflar os ânimos.]

Voltemos ao que vi. Tente deixar qualquer convicção política de lado e visualizar a cena: eram 9h e pouco da manhã. Nesta hora, o supermercado está tomado por velhos, empregadas com crianças, mães com filhos. É um horário típico para este público, que normalmente vai comprar comida para o café da manhã ou para o almoço. Além disso, há uma farmácia lá dentro. Neste horário da manhã, farmácia = mais velhos.

Menos importante do que as pessoas, mas mesmo assim relevante: há bens privados ali (carros, motocicletas, bicicletas) e – obviamente – o próprio estacionamento é privado. O argumento do interesse social prevalecendo sobre o bem privado, neste caso, é falácia. Não estamos falando de uma estrada que precisa cruzar uma fazenda para dar acesso a uma cidade inteira, ou sobre desapropriar uma área para construir uma escola ou um posto de saúde. Não. A marcha da Via Campesina só interessa (veja só) à própria Via Campesina e aos seus correlatos. Eles não têm legitimidade para dizer que representam as pessoas que querem uma reforma agrária decente no país. Eu quero, por exemplo. E não, eles não me representam em métodos, ideologias e vida prática.

Agora outro exercício de imaginação: você é um policial e está ali, em serviço, acompanhando a marcha, caminhando pela calçada, de papo com seus pares, como já narrei e como estava acontecendo de fato. Então, de repente, pessoas com paus, bambus e objetos que estão mais para escudos do que para cartazes (que poderiam ser de PAPEL, por exemplo) invadem o estacionamento. Há desordem. Os invasores estão evidentemente exaltados. Dentro deste bem privado invadido há outros bens privados que (é uma hipótese) podem ser depredados. E pior: há pessoas neste local que, diante daquela multidão, estão indefesas. Muitas se sentem acuadas e voltam para dentro do supermercado. E a marcha a bater escudos.

Em uma tentativa de evitar que o supermercado fosse invadido, as portas são fechadas. Neste momento o estacionamento já está em parte tomado. Agora me diga: o que a polícia deveria ter feito neste caso? Continuar a caminhar pelas calçadas, pacificamente, assistindo aquilo de forma bovina? Se esta tivesse sido a atitude, caros, eu passaria a temer MUITO pela minha segurança e pela segurança dos meus (poucos) bens e (muitos) amigos. Caso não houvesse intervenção naquele momento seria a instauração do Vale Tudo. Quer dizer que amanhã podem fazer isso no quintal da minha casa? E a polícia vai assistir sem fazer nada? Podem fazer isso em nome da FUNÇÃO SOCIAL?

Sigo: a polícia, de forma firme mas sem QUALQUER TIPO DE VIOLÊNCIA (repito, eu estava lá), tenta fazer com que a parte da marcha que invadiu o supermercado volte para a rua. Detalhe: não era o Choque, eram policiais comuns. Obviamente não houve entendimento porque, acredito firmemente, a baderna interessa, o tumulto sempre joga a favor dos movimentos nessas situações. Há poucos policiais feridos porque, afinal, eles estão vestidos e armados para situações de conflito. Isso não significa que tenha havido menos violência por parte da marcha. Mesmo com escudos, coletes e fardamento especial, houve baixas entre os solados. É preciso fazer alguma força para conseguir este efeito.

Quando a situação fugiu completamente do controle chegou a Tropa de Choque. Aí, amigos, não importa quem está na frente. Batalhões de choque, em todo o mundo, agem assim. É certo? É errado? Isso é OUTRA discussão. Assim como essa polícia serve para evitar que uma horda de marginais invada uma arquibancada social em um estádio e ameace a SUA FAMÍLIA, ela foi acionada para reverter o caos, restabelecer a ordem das coisas (estacionamentos servem para estacionar; supermercados, para vender alimentos). O que não se pode querer é que haja um tratamento diferenciado, com mais CARINHO, porque ali há um movimento social. A Via Campesina, o MST ou o Instituto Liberal não são importantes ao ponto de invadirem um local e porem sob ameaça a integridade física de pessoas que, no caso, foram ali comprar alimentos ou medicamentos.

O resto é história. Quando há animosidades e agressões mútuas os resultados são imprevisíveis.

Como testemunha ocular (e não comentei o que não vi), ficou claro que não há bandidos ou mocinhos naquele episódio. A Via Campesina fez o seu papel (protestar para os seus interesses, invariavelmente, envoltos em métodos pouco pacíficos, como é amplamente conhecido). A Brigada fez o seu: tentou acalmar os ânimos e, sem entendimento, desceu a borracha com métodos pouco carinhosos, como também é amplamente conhecido.

Qualquer relato fora disso, contado por quem não viu o episódio, é alucinação ideológica.

Pancadaria, o vídeo

19:17 | 12/06/08 | Walter Valdevino

Eu adoro o petismo mental porque ele não tem limites para o auto-afundamento. Tava passeando por uns blogs do Pê Tê por aí e encontrei o vídeo abaixo, registrando trechos da pancadaria entre a Via Campesina e a Brigada Militar. Comentarei trecho por trecho.

00:00 - “Desgovernadora Yeda” - Bom saber que o nosso bordão “desgovernadora“, criado antes mesmo da posse, está se difundindo sem controle e sendo usado pela petezada. Podem usar, não cobramos royalties (por enquanto).

00:24 - A Brigada conversa bovinamente com a cumpanhêrada quando o cumpanhêru de boné verde simplesmente surta. Pancada nele, ora.

01:08 - A câmera filma os brigadianos cercando a entrada do Supermercado Nacional. Do nada, uma moçoila revolucionária se aproxima do brigadianho. Leva um tufo.

01:23 - Apontando armas com balas de borracha, a Brigada continua cercando o supermercado e mandando a cumpanhêrada sair.

01:39 - Começa o trecho em que a Brigada fica em formação, parada, ao redor do supermercado. A cumpanhêrada atiça.

02:00 - Kenny, a lata de lixo do prefeito Fogaça Poeta, tomba mortalmente no chão. Deve ter sido a Brigada, com toda sua truculência, que atingiu Kenny. Se eu fosse o Poeta (zz…zz..zz), não deixava por isso.

02:10 - Alguns soldados avançam e atiram balas de borracha e de efeito moral para dispersar a cumpanhêrada, que insiste em lutar contra o Wal-Mart feio, bobão e capitalista.

02:43 - Já recuados na Rua Múcio Teixeira, a cumpanhêrada entra em formação de tropa de choque, fazendo bom uso dos escudos levados para o “protesto pacífico” e chamando a Brigada pro pau. É um protesto sociau.

02:55 - Aparece o primeiro cumpanhêru lesado.

03:00 - Aparece o primeiro petralha “explicando” o que houve: “A polícia espremeu o povo, fazendo o povo arrebentar a cerca.” Viu? Culpa da Brigada. Wal-Mart, proce$$e Yoda por danos ao patrimônio privado.

03:30 - Brigada, ainda em formação, avança pela rua, a vários metros da cumpanhêrada, que recua.

03:43 - Um dos melhores momentos: a cumpanhêrada, em formação, recua. E recua batendo com pedaços de pau em seus escudos improvisados, usado a mesma tática da polícia de choque. É bom lembrar que a Brigada, em momento algum do vídeo, bate com os cacetetes nos escudos (que pena). Posso estar enganado, mas alguém disse por aí que o movimento era pacífico e que essa história do CAMINHÃO inteiro apreendido pela polícia com escudos e pedaços de pau (o mesmo que eu vi na matéria da mídia má ontem) não passou de um delírio dos monstros neoliberais que querem sufocar o povo. Agora, os escudos e os pedaços de pau estão ali no vídeo. Deve ser um delírio coletivo.

04:20 - O Coronel Paulo Roberto Vamu-detoná-a-bandidági Mendes, novo comandante-geral da Brigada, aparece andando calmamente junto aos policiais.

05:24 - A Brigada, parada, em formação, começa a ser empurrada. Reage, obviamente. Recomeça a pancadaria. Olhem bem atentamente (05:32) quem está insuflando a cumpanhêrada. É ele, ali na direita, nosso querido deputado estadual Raul Carrion (PCdoB), que no final do vídeo vai falar.

05:42 - Os brigadianos gritam “alinha”, para reorganizar a formação. Realinhamento feito (05:56) e tudo se acalma momentaneamente.

06:10 - Cumpanhêrada entra em formação na frente da formação dos brigadianos. Um cabeludo de touca, que nunca pegou numa pá na vida (veio direto do Campus do Vale), tenta organizar as coisas.

07:19 - Começa a correria e câmera só filma o chão. Derrota. Nós, golpistas que queremos derrubar a desgovernada, estávamos sedentos para saber quem provocou quem nessa hora. Brigada manda ver nas bombas de efeito moral.

08:27 - Patricinhas “campone$a$”, com suas belas jaquetas, correm e tossem por causa do gás.

08:35 - Momento do BANDITISMO PROFUNDO. Uma vagabunda aparece com um bebê de colo. Não é nem uma criança um pouco maior, é um bebê de meses que está passando mal. A criminosa e uma amiga tentam fazer respiração boca a boca na criança:

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Não sei, talvez os meus valores neoliberais bugueses e imperialistas estejam meio tortos, mas tenho a leve impressão de que teria muito prazer em surrar essa vadia que levou o filho de meses pra levar gás lacrimogênio nas fuças. Culpa da Brigada e do governo neoliberal (aquele que tentou aumentar imposto antes mesmo da posse), é claro.

08:56 - Começa a entrevista do deputado Raul Carrion (PCdoB), o mesmo que, antes, estava insuflando a cumpanhêrada para ir pra cima da Brigada. Resmunga alguma coisa com “não podemos deixar que a constituição deixe de valer na cidade de Porto Alegre devido aos humores da [des]governadora“. Concordo integralmente, nobre deputado. Art. 5º, XXII: “é garantido o direito de propriedade.”

Agora só espero que a petezada não tire o vídeo do ar. Jamais vi algo tão e$clarecedor.

Denúncia exclusiva

15:35 | 12/06/08 | Walter Valdevino

Estou chocado porque nenhum blog do PIG (o outro PIG, o Partido da Imprensa Governista, não nós, o Partido da Imprensa Golpista) percebeu a presença de integrantes do Cirque de Soleil na manifestação/pancadaria ocorrida ontem na capital bovina.

Ícone do capitalismo malvado e explorador que transformou o circo, essa coisa petista e fedorenta, em um item de consumo para a burguesia privilegiada (melhores ingressos a R$ 400), o Cirque de Soleil agora permite que seus palhaços façam parte de protestos junto aos camponeses explorados da Via Campe$ina.

A prova está na foto de capa da Zero Hora de hoje. Acorda, PIG (o governista)!

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Cumpanhêrus em chamas

14:10 | 11/06/08 | Walter Valdevino

Antecipando-se aos tucanóides, que pretendem trazer para a capital bovina “cinco ou seis ônibus com tucanos do interior” para dar apoio à Desgovernadora, o pessoal dos movimentu sociau já está botando para quebrar contra as FORÇAS DA LEI.

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Foto: Emílio Pedroso/ZH

Em marcha do Ginásio Tesourinha para o Palácio Piratini, agora de manhã, já rolaram duas pancadarias. A primeira foi no estacionamento do Supermercado Nacional do bairro Menino Deu$. Segundo a Zero Hora, o grupo estava protestando contra a alta dos alimentos e derrubou uma cerca do estabelecimento.

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Foto: Emílio Pedroso/ZH

Segundo Magali De Rossi, do comando estadual da Via Campesina, o objetivo era “fazer uma celebração mística durante meia hora contra o preço abusivo dos alimentos. Pretendíamos cantar músicas e erguer símbolos como sementes, flores, bolas e brinquedos. Depois de meia hora, seguiríamos a marcha.

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Foto: Emílio Pedroso/ZH

Para quem é de fora do Bovinão, é preciso explicar que a rede de supermercados Nacional foi comprada recentemente pelo ícone do capitalismo mau, feio e bobão, o Wal-Mart. Eu particularmente apóio a manifestação da Via Campesina, mas acho que estão usando justificativas erradas. Tem que protestar porque o Wal-Mart se instalou no Braziu e virou comunista instantaneamente. Nós, bovinóides, estamos esperando até agora uma política arrasadora de preços baixos, capitali$ta$ e malvados, como a rede sabe muito bem oferecer em outros lugares. Quando o Wal-Mart do Braziu adotar o capitali$mo, até a Via Campesina vira cliente.

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Foto: Emílio Pedroso/ZH

Depois de levar uma surra da Brigada Militar no estacionamento do supermercado, de ter o carro de som aprendido (ufa) e de uma baixa de 12 cumpanhêru detidos, foi a vez de apanhar novamente Parque da Harmonia (o tal Parque Maurício Sirotsky Dono-da-Mídia-Má Sobrinho).

Assim, não dá. A Yoda nem vai tomar conhecimento do protestu.