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Delta City

16:42 | 12/12/08 | Jones Rossi

Bairro da Luz

Parece Bagdá, mas é o bairro de Santa Ifigênia, São Paulo. Na Rua dos Gusmões, quase esquina com a Rua dos Protestantes, uma guerra parece ter se abatido sobre duas quadras inteiras. Resta em pé apenas o hotel Iberia, um edifício de três andares e 22 apartamentos que, após quatro décadas de funcionamento, foi interditado em novembro do ano passado pela subprefeitura da Sé, que alegou falta de segurança.

A população do hotel, que mesmo após a região ganhar a alcunha de Cracolândia ainda mantinha lotação quase total, hoje se resume a duas gatas malhadas que ficam na janela, em andares diferentes, contemplando um ou outro pedestre que passa por ali. Dos 58 imóveis que ficavam naquelas duas quadras, 56 foram desapropriados e demolidos pelo projeto de revitalização da Prefeitura iniciado em 2005, que rebatizou uma área de mais de dois milhões de metros quadrados como Nova Luz.

Estão previstas para funcionar no local a nova sede da Prodam (Empresa de Tecnologia da Informação e Comunicação do Município de São Paulo) e, na quadra da frente, da Prodesp (Companhia de Processamento de Dados do Estado de São Paulo). Perto dali, também deveriam haver dois prédios da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano). Por enquanto só escombros ocupam os terrenos. E das 23 empresas que se habilitaram para receber incentivo fiscal para se instalarem em 154.911 m2 da Nova Luz apenas uma agência de publicidade está funcionando.

Atraída pelos incentivos fiscais anunciados pela Prefeitura, que poderiam abater até 80% do que seria investido, a Fess’Kobi mudou-se para a Rua do Triunfo já em 2005. Hoje, três anos depois, não recebeu os esperados incentivos fiscais e não viu nenhuma outra empresa seguir seu exemplo.

Ainda estamos esperando que aconteça alguma coisa, mas já não estamos tão otimistas”, diz Celene Nolla Marrega, diretora administrativa da agência. A empolgação que tomou conta dos sócios e funcionários da agência há três anos foi substituída pela decepção com o projeto. “Depois que derrubaram e interditaram estacionamentos e o comércio que tinha aqui em frente ficou pior”, reclama.

Perto dali, de frente para os terrenos vazios, no final da Gusmões, fica um prédio da Guarda Civil Metropolitana, que abrigará um centro de monitoramento, onde são operadas as câmeras que vigiam o Centro da Cidade. Por enquanto, dois guardas da GCM limitam-se a imitar os vizinhos felinos e observar os passantes.

Na frente do Ibéria, José Carlos, que administrava o hotel com seu pai, e José Maria Espino Souto, espanhol radicado no Brasil há 52 anos, apontam para bares, bancas e postos de gasolina que existiam até um ano antes, mas que agora só eles conseguem enxergar. “Nestes quarteirões havia 150 pessoas trabalhando”, afirma José Carlos. Ele mesmo, com o fechamento do hotel, dispensou sete funcionários.

Sem a fonte de renda que o hotel lhe proporcionava, José Carlos acumulou dívidas e já está tendo dificuldades em pagar a faculdade dos filhos . Como não era o proprietário do prédio onde ficava o Ibéria, não recebeu indenização pela perda do ponto. Entrou na justiça, junto com outros comerciantes da região e ganhou em primeira instância. Mas o caminho para receber o dinheiro ainda é longo. Espino Souto, o espanhol que tinha um bar ao lado do Ibéria, vive apenas da aposentadoria. “O rendimento caiu a zero”, diz José Carlos. Clóvis, o dono do posto que ficava na esquina, também não se recuperou do fechamento de seu negócio. “Me tiraram daqui. Estou trabalhando de empregado. Minha vida mudou 1000%. Estou com o nome sujo.”

Francisco Molina, de 56 anos, é um dos poucos ex-empresários da região que não tem medo de se identificar com nome e sobrenome. A maioria teme a reação da Prefeitura. “A Prefeitura fechou meu estacionamento por que eu não tinha alvará. Mas fecharam 15 dias antes de vencer a requisição. Se eu era clandestino, que me devolvam os impostos que paguei por 14 anos.” Seu estacionamento foi fechado por alegado “interesse público”, e foi lacrado com uma parede de tijolos com um aviso da Subprefeitura da Sé, como tantos outros da região.

O Secretário de Coordenação das Subprefeituras, Andrea Matarazzo, prepara uma última cartada para agilizar o processo que se arrasta por todos estes anos. É o projeto de lei que prevê a concessão urbanística, que, se for aprovado na Câmara Municipal, vai dar a empresas o direito de desapropriar imóveis na região da Nova Luz. Segundo o secretário, mesmo que o proprietário não queira sair,  o resultado será positivo, pois as empresas que que ganharem a licitação para desapropriar poderão oferecer valores acima de mercado. “O governo não pode pagar acima”, disse. “Vai ser mais fácil chegar a um acordo.”