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Você é um imbecil

7:06 | 02/03/09 | Leandro Demori

Vou abrir a semana com uma pequena história para aqueles que nasceram para brilhar. Isso mesmo: você, VOCÊ! que nasceu para o sucesso por que, afinal, ser um loser é para o perdedores, oh! redundância da existência. Deixe isso para os outros, aqueles que eram a má influência na “Infância Segundo Sua Mãe”.

Sinceramente? Não sou lá de me impressionar muito. Trabalhei em redação por anos, recebia fotos de pessoas completamente mutiladas por uma barbaridade qualquer da vida e, enfim, a gente acaba se acostumando. Como tenho meus limites pessoais e perder a humanidade não faz parte do meu projeto de vida decidi sair dessa. A política, por mais suja que possa ser, acaba virando uma imensa piada. Afinal de contas, se VOCÊ que é o interessado maior em melhorar as coisas não faz nada, eu é que não me sinto na obrigação de fazer.

Mas preste atenção nessa história.
Preste muita atenção nessa história.

Você que está aí pensando em como se integrar ao mondo capitalista que irá lhe trazer a felicidade, o mondo capitalista que fantasia na sua existência doente. Você que não “mede esforços”, que “veste a camisa”, que faz hora-extra sem receber porcaria alguma e que passa por cima de tudo e de todos porque, “Ei, o mercado de trabalho é Thomas Hobbes, merrmão”.

Pois saiba que você é um idiota.

Leia este e-mail que recebi durante o final de semana e tenha certeza disso: VOCÊ é um tremendo, um imenso, o maior idiota de toda a existência.

“Então, fui pro curso sozinha, pois é assim que tem que ser. Não pode ir com seu carro, não pode conhecer ninguém lá dentro. E assim foi. Ah! 1.500 reais. Por dois dias. Tem que ser levada por alguém que já fez o curso.

O lugar é paradisíaco. Em meio à campos de golfe, chalés e flores e mais flores, se esconde um barracão sem janelas de uns 7×5 m. Um contrato é assinado: a obediência às regras é condição sinequanon. Fazer o quê? você. já tá lá mesmo…

122 pessoas agrupadas no barracão, cadeiras rigorosamente enfileiradas, palco na frente. É feita uma palestra para apresentação da chefia. Uns dois médicos, vários terapeutas, cada cara mais esquisita. (Começo a desconfiar que entrei numa roubada). Depois de uma leve palestra introdutória, cheia de recomendações e regras, começa o workshop. Retiram-se as cadeiras. Nós que temos que arrumar e desarrumar tudo. Quando se entra no barração não pode sair. Nem se você. tiver morrendo por falta de ar, nem com crise epilética. Ir ao banheiro então, nem pensar!

Celulares e outras mordomias são terminantemente proibidos. Conversas ou risos, forget it. Eles dizem o que tem que ser feito e você. repete. Detalhe: além da cara de mal encarados, eles todos se vestem de preto total. Os homens de terno.

1º exercício: uma fila parada e a outra andando olhando e gritando para quem estava parado, de um a um, coisas meigas como: COVARDE, IMPOTENTE, BOSTA, PREPOTENTE, ETC. Assim de um em um todos eram expostos a ouvir por 121 vezes, e a dizer 121 impropérios. Algumas pessoas, Leandro, choravam muito. Desesperadas. Outras pareciam o Hanibal em dia de festa. Não podia rir, por todos os lados havia um deles te fiscalizando e SURPRISE, te castigavam por qualquer coisa que achassem merecedora de. Eu, essa criatura selvagem que você. já conhece, me rebelei nos primeiros 5 minutos e levei um balde de água fria na cabeça. Depois do quinto balde e encharcada, fui levada por dois torturadores para fora e convidada a me retirar. “Agora eu vou ficar. E vocês. parem de pegar no meu pé”. E eles: “Pelo contrário, vamos pegar muito no seu pé”. OK.

Isso durou das 19:56 até às 4:32 da manhã. Os horários são assim. Tinhamos q. voltar ao barracão às 7:00. Detalhe: tinha que voltar com um texto decorado sobre vencedores e perdedores. “E, aí de quem não souber tudo na ponta da língua, os castigos vão ser tão terríveis que vocês. nunca mais se recuperarão. Coisas inimagináveis poderão ocorrer” - Imagina, tava todo mundo fragilizado, cansado, só escutando grito, confinado, o ar condicionado ora muito frio, ora muito quente, sem poder tomar nem água, nem ir ao banheiro, sem poder falar com a pessoa ao lado, BIZARRO, SINISTRO -

Aí, pequeno, que eu tava com uma enxaqueca de matar e como não podia tomar remédio, fiquei
numa fila que eles me colocaram para conversar com o médico, que me disse com grande tédio que minha dor de cabeça era uma muleta e era bom eu desafiá-la.

Saí dali atordoada e procurando meu chalé. Só via as pessoas sonambulando, robotizadas, tentando decorar aquela jóia de literatura:… “Se você. pensa que é um derrotado você. será derrotado . Se não pensar, quero a qualquer custo, não conseguirá nada.”…

O quarto era minúsculo e tinha 4 camas. Isso era o q. menos importava, porque a última coisa a fazer era dormir. Fiquei debaixo do chuveiro por muito tempo, tentando recobrar minha sanidade. E pensei “fucsia” com esses versos de merda, “sucesso a qualquer custo” não é minha praia. Saí de lá melhorzinha e mal tive tempo de engolir um suco e já escutei os acordes de “Assim Falava Zaratrusta” que era o sinal de que faltava um minuto para entrar no barracão.

Quase ninguém decorou e quem decorou o fez com erros. Daí fomos todos castigados. Nos levaram para um corredor de 3 m. de largura por 10 de comprimento. Formamos filas e tinhamos que ficar estáticos com distancia de um palmo entre um e outro. Vigiados de perto não podíamos fechar os olhos, nada. Ficamos assim por umas 3 horas. Eles iam chamando um por vez, e podíamos escutar os gritos vindos do barracão. É incrível a fragilidade do ser humano. Naquelas horas tudo passava na minha cabeça. De choque elétrico a torturas inimagináveis. Era isso que eles se referiam quando disseram que nunca poderíamos imaginar etc. A nossa imaginação bate qualquer realidade: o medo, o pânico te assombra de tal forma que nenhuma realidade pode ser pior.

Mas a espera, o sofrimento te detonam de tal forma que bagaço é pouco. Quando você. sai dali tem uns minutos para comer e uma nova chance de memorizar o texto. Só pra não te dar um segundo de paz. Soa o Zaratrusta e volta pro barracão. Entra o Tadashi. Pede o texto. Grita, Berra, e muda de assunto: “Terapia da Raiva”: explica uma formação esdrúxula e um círculo se forma no centro. Todos temos que respirar de uma determinada maneira, em determinada posição. Isso com ele aos gritos, num microfone, e os “torturadores” andando entre nós, fiscalizando. Daí que o bicho pega. É inacreditável. Se eu não tivesse visto acho que não acreditaria, pois ninguém que sai de lá conta o que viu ou o que se passou. Só de te contar, já estou passando mal. Por isso parei antes.

A reação das pessoas varia muito: alguns fazem que vão vomitar, outros vomitam… detalhe: fica tudo lá. Outros começam a estrebuchar, tipo Igreja Universal ou Terreiro. A gente tem que ficar com os olhos abertos, respirando olhando pra frente. Mas o q. você. não vê nem pela visão periférica, você. pressente pelos ruídos. É macabro.

Os torturadores vão avisando pro Tadashi quem está pronto (surtado), e a pessoa é encaminhada para o centro onde TODOS assistem aquela pessoa gemer, urrar, e o Tadashi vai botando pilha pra pessoa surtar mais um pouquinho. Quando em frangalhos, um torturador recolhe aquele ser que vai para uma parte do recinto, onde guarnecidos com bastões de madeira, batem em almofadas, ensandecidos, ou se atiram pelas paredes, uma coisa. Eu vi isso acontecer 121 vezes e só pensava: ‘Somos animais e selvagens. Um leão não faria isso, nem um elefante. Qual a explicação disso? Nunca mais confiarei em ninguém da minha espécie.”

Eu estava nessa onda quando Tadashi, him himself personifica ao meu lado, segura meu braço e manda: “Agora você” Eu disse: “Mais tarde eu vou, ainda não estou preparada” E ele, malvado: “Você vai!” Eu praticamente berrei: “NÃO VOU”. Ele: “Ou vai ou saí agora” Eu disse: “Saio com prazer”.

Se você. me perguntar o sentido de tudo isso, talvez você. possa me dizer. O que sei é que já são 180 mil pessoas que participaram desse treinamento e pertencem à “Família Silva” e existem muitos outros cursos “avancé”. Tem um em que a pessoa é obrigada a andar num caminho em brasas. Ele é referenciado e tratado como “Tadashi, meu rei”. É tipo um reverendo moon dos trópicos. O que sobrou disso tudo foi uma descrença enorme na racionalidade do ser humano.

Sabe, eu fiquei durante bastante tempo chocada. Escrevi pro XXX, redação da XXX, ele me respondeu, pessoalmente, dizendo até o nome do repórter que mandaria lá. Acontece que o cara, Tadashi, é muito inteligente, muita gente viu a entrevista na Marília G. e senso comum, “ele é o cara”. Acontece que a partir de então passei a acreditar que ela leva bola, pois é impossível, como uma jornalista séria, não checar, não investigar. O mais sinistro é que mesmo sem conversar com “os colegas”, você. percebe que tem muita gente póbre, digamos assim. Com o tempo, conversando com pessoas que já ouviram falar dele, soube que muitas empresas mandam empregados. Vamos imaginar, por hipótese, você. é empregado e seu chefe manda você. fazer um curso desse: “leadership trainning”, no mínimo é pra te preparar pra alguma função de maior responsabilidade, certo? Em chegando lá, você. desistiria, ou passaria por cima dos outros que nem um trator pra mostrar pro seu chefe que você. é um fodão?

Agora, pra mim, o que realmente pegou foi o fato de minha filha e meu genro terem ido, cada um na sua vez, terem insistido muuuiiito pra eu ir e continuarem frequentando e amando o Tadashi. Não entendo de jeito nenhum. Ela é arquiteta, mas sofre de paulistice, vai ver que é isso. Resultado dois pontinhos, estamos sem nos falar. Isso é grave.

Claro que pode publicar, vai ser um prazer! Acho que nem tem a ver citar nomes. Vou gostar de ler sua versão. Quem sabe tu não me ajuda a entender? Nós estamos aqui pra acrescentar, não é mesmo?

Manda ver.
Bjo.”